quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Cap 5 Ascendentes de Joana cont 4

Manoel José Vianna, Português, residente em Sam Christovam (Sergipe)

Em construção permanente

Esta é a continuação do capítulo de mesmo número no endereço abaixo
domingosejoanita.blogspot.com

Neste blog  (Cont 5) a ênfase é  na continuação do blog no link abaixo
http://domingosejoanita03.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana-cont-3.html

Cap 5 Ascendentes de Joana

O blog seguinte se encontra no link abaixo
http://domingosejoanita05.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana-cont.html



O registro dos negócios de Manoel José Vianna publicados na imprensa da época dão uma boa idéia sobre o tráfico interno de escravos  para as agroindústrias sucroalcooleira e cafeeira. Mostra também que havia todo tipo  profissão, etnia e origem geográfica e nacional tanto de senhores quanto de escravos. Num registro interessante surge a informação de um padre que vende seu escravo. Ou seja a instituição da escravatura estava bem firme e permeava todos s setores da sociedade.




Mais abaixo, no mapa vêem-se as rotas de tráfico de escravos e  ilustrações que segundo  Tia Yolanda Meirelles foram inspiradas na imagem de Manoel José Vianna. A maior delas retrata Manoel ainda jovem e foi produzida por um pintor amigo da família, com base em imagens da época e compõe uma  série de  pinturas sobre a vida no mar. A menor é parte de uma caricatura inglesa.


Manoel José Vianna

Recortes da imprensa da época dão conta de suas atividades no mar, inclusive de  um dos patachos de sua propriedade, o São Paulo.





Viannas de São Cristóvão

No  livro de São Cristóvão encontra-se uma provável irmã  de Manoel José Vianna que pode dar pistas sobre seus pais. Observe-se que as informações dadas pelo arquivo de Sergipe indicam que os assentos  anteriores a 1845 foram destruídos ou trasladados para Salvador. Abaixo pode ser vista cópia do assento encontrado.
Lv Igreja NS da Vitória pg 141 -   Antonia Maria Vianna nascida em 1821 falecida a 30.05.1885 de inflamação, filha legítima de Pedro José Vianna e  Maria Josefa Vianna.

Educação e Ferrovias - Crise na Família



A Educação foi uma grande unanimidade em todos  os ramos da família. Entre os diversos lemas que se ouvia com freqüência de todos os ramos destacam-se os seguintes:
1)       Educar-se é dever e responsabilidade de cada um.
2)       A conquista pessoal da educação é que faz alguém vencer na vida.
3)       Para não se decepcionar  não espere que o Estado, ou a Escola, ou os professores lhe proverão educação, pois só seu esforço pessoal lhe dará conhecimento e habilidade.
Por outro lado, a  cultura ferroviária foi motivo de admiração e discórdia na família segundo relatos de meu pai . Graças a ele e a meu irmão Alfredo (que trouxe meu primeiro kit de trens Märklin HO da Alemanha após a sua viagem de Guarda –marinha) a tradição de ferreomodelismo  e a valorização de ferrovias me foi transmitida.
Barão de Mauá ou Visconde de Mauá (1813-1889) industrial e político brasileiro, pioneiro da industrialização no Brasil, ídolo  dos capitalistas e empreendedores brasileiros do século XIX, fez admiradores na família e também pessoas avessas e questionadoras de sua obra. Foi responsável por grandes obras como um Estaleiro no Rio, a pioneira Companhia Fluminense de Transporte e a primeira estrada de ferro do país ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis, a pioneira Companhia de Navegação a Vapor do Rio Amazonas . Investiu como sócio de capitalistas ingleses e cafeicultores paulistas nas ferrovias do Recife and São Francisco Railway Company e a de Salvador que chegavam até o Rio São Francisco,  na construção da ferrovia dom Pedro II, atual Central do Brasil e da São Paulo Railway, hoje Santos-Jundiaí, criou a pioneira Companhia de Iluminação a gás do Rio de Janeiro, fundou, no final da década de 1850, o Banco Mauá, MacGregor & Cia, com filiais em várias capitais brasileiras, como também em Londres, Nova Iorque, Buenos Aires e Montevidéu. Ajudou a fundar o segundo Banco do Brasil pois o primeiro havia falido em 1829,  entre várias outros empreendimentos.  Iniciou a construção do canal do mangue no Rio de Janeiro e foi o responsável pela instalação dos primeiros cabos telegráficos submarinos, ligando o Rio de Janeiro à Europa.
Do lado dos  parentes de Antonio Ferreira da Silva Quintella devido  a suas  origens inglesas (Norton, Warren e Terry)  houve sempre um desejo forte de expandir aqui as ferrovias. Todavia este ramo tinha forte solidariedade com o Império por ocasião da Guerra do Paraguai . Antonio Ferreira da Silva foi presidente do Banco Rural e Hypothecario que financiou os custos da Guerra e prosperou com isto. Este ramo criticou e se afastou de Mauá  ao saber de sua traição em apoiar o Uruguai contra os interesses do Brasil, fornecendo os recursos financeiros necessários à defesa de Montevidéu quando o governo imperial decidiu intervir nas questões do Prata em 1850, e assim, tornou-se persona non grata no Império. Os Vianna por serem da Guarda Nacional  e ligados a açucarocracia sergipana não tinham por ele nenhuma simpatia.
 O Barão de Mauá (1813-1889)  era gaúcho e filho do fazendeiro João Evangelista de Ávila e Sousa e Maria de Jesus Batista de Carvalho. Órfão de pai aos oito anos de idade, foi criado por  um tio, capitão da marinha mercante. Foi balconista de uma loja de tecidos, caixeiro e depois sócio da Companhia Inglesa Richard Carruthers, especializada em importação.  Em 1837 adquire uma chácara em Santa Teresa. Chamava seus empregados de “auxiliares” como os Antonios. Identificava-se ainda com os Antonios José de Meirelles – pai e filho- por seu dinamismo, sua ascensão vindo de baixo, pela antipatia que nutria pelos  senhores de engenho e pela corte, por dar abrigo a escravos libertos ou foragidos, alguns dos quais ligados aos esforços libertários dos Antonios.
Em 1854 fundou a Companhia de Iluminação a gás do Rio de Janeiro e no dia 30 de abril inaugura 15 km da primeira estrada de ferro ligando o Porto Mauá na baía da Guanabara à encosta da Serra da Estrela. Entre os convidados estava Dom Pedro II, que no mesmo dia concede a Irineu o título de "Barão de Mauá". A locomotiva recebe o nome de Baronesa em homenagem à esposa do Barão. Inaugurou nesse mesmo ano o trecho inicial da União e Indústria, primeira rodovia macadamizada do país, entre Petrópolis e Juiz de Fora, apenas  quatro anos após a fundação da primeira de todas as estradas de rodagem do país de Mangaratiba a Rio Claro – RJ por D Pedro II.
Apesar de todas as realizações o Barão de Mauá terminou falindo. Em 1874 recebe o título de Visconde de Mauá. Em 1875 com o encerramento do Banco Mauá, viu-se obrigado a vender a maioria de suas empresas a capitalistas estrangeiros. Doente, sofrendo com a diabetes, só descansou depois de pagar todas as dívidas, encerrando com nobreza todas as suas atividades, embora sem patrimônio.  Este fracasso final e absoluto acabou fazendo com que toda a família acabasse por  ter dele uma imagem negativa. Mesmo os Antonios, que por terem o espírito de imigrantes, julgavam que a única forma de afirmar-se numa sociedade  estranha e cruel era o sucesso.  Por isso os mais jovens da família, já no fim  do século XIX, criticavam enfim a diversificação excessiva, a falta de foco,  a inabilidade política para sustentação dos negócios, e o desalinhamento com o que seria na época um conjunto de fatores críticos de sucesso,  com toda razão.
Irineu Evangelista de Sousa faleceu em Petrópolis, Rio de Janeiro, no dia 21 de outubro de 1889, pouco antes da queda do Império.



Na visão de todos os negociantes na família, que eram entusiastas  das ferrovias e do modelo inglês de desenvolvimento baseado em Ciência e Tecnologia, o erro fatal cometido pelo barão foi sua falta de foco nas ações. Isto impossibilitou investimentos em educação científica e tecnológica que dariam continuidade nos negócios ferroviários.  Mauá, como os demais falsos heróis fabricados artificialmente pelos republicanos foram fracassados ( para citar apenas alguns: Tiradentes – rebelde derrotado por falta de planejamento; Euclides da Cunha – corno bravo que com sua inconseqüência provocou uma tragédia familiar com sua morte e a de seu filho a tiros pelo tenente Dilermando, amante de sua mulher.).   Eis porque o país não decola. Founding Fathers ou heróis devem ser necessariamente muito poucos, de reais e incontestáveis realizações para inspirarem os cidadãos comuns a pelo menos planejarem suas vidas, para que a morte ocorra antes que termine o sucesso. Mesmo assim a filosofia dominante na família é que o homem auto-suficiente deve ser capaz de se realizar e se liderar sem culto a heróis e discretamente servir de exemplo para o povo.  Enquanto na Inglaterra celebram os sucessos retumbantes de Sir Isaac  Newton ( O físico e  herético lorde sepultado em glória na abadia de Westminster) e Michael Faraday (O  físico celebrado na nota de 20 libras), no Brasil os heróis são homúnculos de meia tigela e pés de barro. Por isso é melhor não cultuar personalidades públicas.
Os Antonios da família apesar de discretamente conduzirem seus negócios tiveram esta sabedoria vária: Valorizar a Educação em Ciência e a Tecnologia,  dar foco em seus negócios e manter o sucesso até o fim de suas vidas.

Nas memórias de seu filho José Pedro, Manoel José Vianna  era percebido por ter a seguinte lista de valores:





Manoel José Vianna e o  Theatrinho Popular de Vianna em São Cristóvão  

Uma das facetas mais fascinantes da vida multifacetada de Manoel José Vianna foi sua atividade em teatro. Documentada no Correio de Sergipe 29/9/1847 por um roubo no seu theatrinho, como se vê abaixo.


Segundo se sabe da tradição oral familiar e dos registros populares o theatrinho particular dirigido por Manoel José Vianna era um misto de atores e bonecos o que o distinguia do clássico mamulengo do nordeste e dos bonequeiros europeus. As dramatizações de sua lavra iam além das temáticas religiosas ligadas às festividades da Igreja, celebrando também as efemérides da família real. Além das alegorias e metáforas educativas ou encomiásticas à realeza e aos santos (noblesse et securité obligent), eram produzidas também cenas de crítica acerba e de humor pesado a certas figuras mal quistas da sociedade. 



Interações multivariadas no theatrinho popular de Vianna de São Cristóvão



O seu diferencial consistia em ir além das interações canônicas: boneco- boneco, boneco- manipulador (o Mão molenga, Babau ou Benedito) boneco- público, manipulador- público. Suas criações introduziam um ou mais atores, mascarados, cantores e coristas que interagiam, ora livremente, ora dentro de scripts com os demais elementos do espetáculo. Ademais alguns destes atores surgiam como elementos surpresa competindo como babaus trazendo bonecos de natureza diferente visando dar um choque estilístico na cena.

Nos baús de família foram encontradas referências e fragmentos de vários tipos de bonecos que são ilustrados a seguir. Esta variedade de bonecos, cenários e peças nos leva a crer que Manoel José Vianna liderava em São Cristóvão um verdadeiro laboratório e escola de bonecaria. Eram usados em sua companhia de teatro fantoches, marionetes, bonecos de vara e de sombras, dedoches, títeres variados sob a influência não só da tradição lusa e outros países europeus, mas também dos diversos povos com que os portugueses fizeram contato na Ásia e África. Esta mescla exótica incluía principalmente elementos dos teatros wayang de Timor,  Bunraku do Japão e do petit-miroir chinoise Pi ying xi de Macao. 



 

No seu repertório havia com freqüência adaptações para bonecos dos autos sacramentais de Gil Vicente e da trilogia das barcas, as arlequinadas do Minho e Tras-os-montes, mas também as peças mais conhecidas do teatro jesuítico brasileiro de cunho catequético, e eventualmente adaptações abrasileiradas dos clássicos Pierre Pathelin, Punch and Judy, Shrovetide de Hans Sach , das Abele Spelen já retrabalhadas por holandeses do Pernambuco batavo e a saborosa Todomundo. Mas o ponto alto e de maior sucesso eram as próprias criações suas e de seus colaboradores que já incorporavam os elementos culturais das  etnias afrobrasileiras e indígenas de Sergipe.


Inserção do Theatrinho Popular no  cenário do Rio de Janeiro
O Theatrinho Popular de Manoel José Vianna esteve em  operação no mínimo desde 1840. Há notícias algumas vindas suas, ainda jovem, ao Rio, provavelmente se preparando para lançar o Theatrinho em São Cristóvão.  Numa ocasião assistiu  e guardou folhetos (de 3/3/1838)  da apresentação da tragédia de Antonio José Gonçalves da Magalhães no Theatro Constitucional  Fluminense (antigo Theatro São Pedro de Alcântara) pela Cia João Caetano e da comédia “ O Juiz de Paz da Roça” de Martins Pena (de 4/10/1838). A onda dominante de mudança estava no ar precedendo a abdicação de Dom Pedro I. Nessa hora, os interessados em teatro, como Manoel José Vianna, assumiram em definitivo o caráter individual de produção e criação dando ênfase aos argumentos nacionais. Em contato com os meios artísticos na corte fez contato também com os trabalhos do grande  dramaturgo carioca oitocentista Antonio José da Silva, O judeu, que havia sido queimado na fogueira da Inquisição. Dele absorveu em segunda mão a influência benéfica de Gil Vicente e Plauto.
A efervescência artística ocorrida com a vinda da corte havia provocado  o surgimento de grandes e pequenos teatros no Rio de Janeiro.  Para citar alguns: São Pedro de Alcântara - hoje João Caetano -, Teatrinho de Luís Souza Dias e Grandjean de Montigny ao lado dele, Teatro de Plácido,  Teatro da Rua dos Arcos, Teatro São Francisco de Paula,Teatro da Praia de Dom Manuel, Teatro Vaudeville da Rua do Ouvidor e do outro lado da Baía da Guanabara O teatro Niteroiense.  Em sua passagem pelo Rio recolheu também textos de diversos autores europeus. Estava disposto a levar esta arte para Laranjeiras e São Cristóvão em Sergipe. Seu contato com Luís Carlos Martins Pena permitiu-lhe manter correspondência com outros    autores como Gonçalves Dias e Manuel Antonio Alvares de Azevedo que enviaram textos que adaptou e encenou em seu Theatrinho Popular. Pelo menos em dois destes teatros menores encenou experimentalmente adaptações para fantoches “Juiz de Paz da Roça” e “Um sertanejo na corte” e “A família e a festa da roça” de Martins Pena.
Sabe-se que além de  encenar peças destes dramaturgos nacionais Manoel José Vianna produziu suas próprias peças para bonecos  que merecem uma pesquisa futura mais aprofundada em seus originais e manuscritos. Sabe-se apenas os nomes de algumas peças de sua autoria: Jesus Cristo no sertão, Um holandês e o cacique Tupinambá, O caranguejo  de pata quebrada , A guerra de Cristóvão e Boipeba .  Em São Cristóvão e Laranjeiras suas peças movimentaram a sociedade Sergipana com muita criatividade e bom gosto aliviando as agruras da vida dura da produção agrepecuária.

Manoel José Vianna realizou com sua pequena companhia de teatro uma verdadeira reencarnação caatinguenta de Shakespeare empregando jovens, senhoras, senhoritas, idosos, clérigos, escravos, caboclos, enfim quase todo o espectro social de Sergipe.














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